CRUX AUSTRALIS

O CRUZEIRO DO SUL

por Renato da Silva Oliveira

A constelação Cruzeiro do Sul é uma das mais conhecidas, principalmente para os habitantes do hemisfério Sul da Terra e particularmente para nós, brasileiros.
Este texto surgiu como sub-produto da elaboração de uma apresentação para o Planetário, no ano 2000, onde  abordava-se o Descobrimento do Brasil e mostrava-se o céu de 1500, contemplado pelos navegadores ibéricos ao se aventurarem  ao Sul do Equador.

 

Presente no brasão das Armas Nacionais, no emblema do Exército e na Bandeira Nacional do Brasil , a constelação Cruzeiro do Sul — a Cruz Austral — está entre os símbolos mais conhecidos e mais usados pelos povos que habitam o hemisfério Sul da Terra. 

Ele é representado, também,  na bandeira do Estado do Paraná e no pavilhão de mais 4 países — Austrália, Nova Zelândia, Papua-Nova Guiné e Samoa Ocidental — além de estar presente em versos de canções populares, do Hino Nacional Brasileiro e do Hino à Bandeira do Brasil.

"Cruzeiro" é, também, nome de time de futebol, nome de cidade e nome da revista mais lida no Brasil nos anos 60.

A figura associada às suas 4 principais estrelas nem sempre esteve ligada ao símbolo máximo católico-cristão. Na antiguidade, suas estrelas eram consideradas como parte do Centauro (em suas patas traseiras) por parte do povo grego e somente a partir das Grandes Navegações, com as épicas viagens ibéricas aos mares do Sul, suas estrelas foram definitivamente associadas à imagem da cruz de Cristo.

O Cruzeiro do Sul, cujo nome em latim é Crux Australis e cujo nome oficial atual é, simplesmente, Crux, é uma das mais importantes das 88 constelações reconhecidas oficialmente pela U.A.I. — União Astronômica Internacional —, apesar de ser a menor de todas elas. Sua área angular é 68 graus quadrados; cerca de 19 vezes menor que a da constelação Hydra, a maior de todas, cuja área é 1303 graus quadrados.

É, também, uma constelação relativamente recente. Quase que completamente ignorada pelas grandes civilizações do passado e mesmo pelos povos europeus até há poucos séculos.

A primeira referência documentada às suas estrelas como representantes de uma cruz encontram-se na Carta de Mestre João de Faras, o Astrônomo Oficial da Esquadra de Cabral. Ele refere-se às estrelas da Cruz, numa carta a Dom Manoel, datada de 1º de maio de 1500. Navegantes da esquadra de Fernão de Magalhães também referiram-se a elas como "O Cruzeiro". Outra referência conhecida é a de Florentino Corsali, que em 1515 refere-se ao Cruzeiro com "Cruz Maravilhosa". O estabelecimento do nome Crux Australis, entretanto, só veio com os trabalhos de Augustim  Royer, em 1617, que separou as estrelas do Cruzeiro, definitivamente, do Centauro.

Brasão das Armas Nacionais do Brasil

 

Bandeira Nacional do Brasil, onde
o Cruzeiro do Sul destaca-se no centro.

Bandeira do Estado do Paraná.

          

Da esquerda para a direita, bandeiras nacionais da Austrália, da Nova Zelândia, Samoa Ocidental
e Papua-Nova Guné. Note-se que apenas na Bandeira do Brasil o Cruzeiro, e as demais constelações, estão representadas como se observadas "por fora" da Esfera Celeste.

 


Se oriente rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
...
Se oriente rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol"

Oriente, de Gilberto Gil


"Brasil de um sonho intenso, um raio vívido,
De amor e de esperança à terra desce
Se em teu formoso céu risonho e límpido
A imagem do Cruzeiro resplandece"

Hino Nacional Brasileiro


"Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas
E o esplendor do Cruzeiro do Sul"

Hino à Bandeira


As grandes civilizações do passado, das quais herdamos grande parte de nossas tradições culturais, desenvolveram-se a milhares de anos atrás no hemisfério norte de nosso planeta, próximas ao paralelo de latitude + 40º, conhecido como o "Paralelo das Civilizações". Dessa região, não se pode observar as estrelas que se encontram próximas ao Pólo Celeste Sul, como as do Cruzeiro.

Mesmo quando consideramos o Movimento de Precessão dos Equinócios e os movimentos próprios das estrelas do Cruzeiro, recalculando suas posições para cerca de 5 mil anos atrás, verificamos que elas ainda se encontram bem ao Sul, ficando pouco tempo visíveis para os habitantes daquelas regiões setentrionais. Por isso, mesmo os gregos antigos, que deram nomes a quase todas as outras constelações, não lhe deram muita importância e nem imaginaram uma figura específica com elas.

No hemisfério sul da Terra, ao contrário, o Cruzeiro é facilmente observado, estando suas estrelas entre as mais brilhantes de todo o céu. No Brasil, entre os meses de março e setembro, ele pode ser visto no início das noites de quase todas as regiões. Particularmente nas latitudes próximas do Trópico de Capricórnio (em todo o território do estado São Paulo), entre maio e julho, ele pode ser visto no início da noite, por volta das 20h, bem alto acima do horizonte Sul. Em junho, em latitudes próximas ao Trópico de Capricórnio, nesse horário, olhando em direção ao Sul, mais ou menos a uns 60º de altura, pode-se encontrar com facilidade as 5 estrelas do Cruzeiro, com o braço maior da cruz quase na vertical, apontando para o Ponto Cardeal Sul.
Em qualquer época em que esteja visível, acima do horizonte, o Cruzeiro pode ser utilizado para a orientação. "Orientar" significa "apontar o oriente", isto é, o Leste. O Cruzeiro permite  facilmente encontrar o Ponto Cardeal Sul, como mostra o esquema da figura ao lado. Assim, diretamente, podemos nos "sulear" pelo Cruzeiro e, em conseqüência, podemos também nos "nortear", nos "orientar" e nos "ocidentar" através dele.

O procedimento para encontrar o Ponto Cardeal Sul é bastante simples. Toma-se como norma a medida angular do madeiro maior da cruz, entre a Estrela de Magalhães e Rubídea. Prolonga-se quatro vezes e meia o madeiro maior em direção ao pé da cruz, encontrando no firmamento o Pólo Celeste Sul (em torno desse ponto, todas as estrelas parecem girar, de Leste para Oeste). O Ponto Cardeal Sul é o ponto sobre o Horizonte sob o Pólo Celeste Sul.  


A importante referência para a Navegação Astronômica advém do fato de o Cruzeiro do Sul possuir cinco estrelas com magnitude aparente menor que 4. Duas delas se encontram entre as 20 mais brilhantes do céu.

A mais brilhante delas, Alfa-Crucis, também conhecida com Acrux, Magalhãnica ou Estrela de Magalhães, representa a parte de baixo do madeiro maior da cruz, mais próxima do Pólo Celeste Sul.

A segunda em brilho é Beta-Crucis, também conhecida como Becrux ou Mimosa, e representa um dos lados (a leste) do madeiro menor da cruz.

A parte de cima da cruz é representada por Gama-Crucis, também chamada de Gacrux, uma estrela de cor ligeiramente avermelhada e que, por isso, é também conhecida como Rubídea (da cor do rubí). Das 4 estrelas que desenham a cruz, esta é a única gigante vermelha. As demais são branco-azuladas.
O outro lado (a oeste) do madeiro menor da cruz é representado por Delta-Crucis, uma estrela bem menos brilhante e que, por isso, é chamada também de Pálida.

Há, ainda, no Cruzeiro, além dessas 4 estrelas que desenham a cruz, uma quinta "estrelinha", Épsilon-Crucis, bem menos brilhante que a Pálida. Por não estar nem no braço maior e nem no menor, é carinhosamente chamada de Intrometida pelo povo brasileiro.

Quando se observa o Cruzeiro no céu, é difícil não atentar, também, para duas estrelas muito brilhantes que se encontram próximas a ele, quase alinhadas com a direção do madeiro menor, poucos graus a leste. São as Guardas (ou Guardiãs) da Cruz.

A mais brilhante delas, mais a leste, é Alfa-Centauri, também chamada de Riguel Kentaurus, Riguel Kent ou Toliman, que é a estrela mais próxima da Terra (depois do Sol, é claro). Ela é a 3ª estrela mais brilhante de todo o céu e se encontra a cerca de 4,3 anos-luz de nós (cerca de 40 trilhões de quilômetros). A outra Guarda da Cruz é Beta-Centauri, que está a cerca de 480 anos-luz de nós. Note que Beta-Centauri, está mais de 100 vezes mais  distante que Alfa-Centauri, e deve ser, portanto, muito mais luminosa que ela, uma vez que seu brilho aparente é apenas um pouco menor. As estrelas estão a diferentes distâncias de nós, de modo que seus brilhos aparentes não são bons indicativos de suas luminosidades.

Dentre as 5 estrelas mais brilhantes do Cruzeiro do Sul, por exemplo, a mais luminosa é Mimosa e a Intrometida é mais luminosa que Rubídea.

A ilustração abaixo mostra as distâncias das estrelas do Cruzeiro como se observadas por alguém à 90º da direção Terra-Crux. A escala horizontal é linear apenas na direção Terra-Crux. Nas outras direções, a escala é outra e propositalmente exagerada. 

 


No Cruzeiro há também ao menos 2 objetos de fundo de céu muito interessantes: o Aglomerado Galático (Aberto) "Caixinha de Jóias" e a Nebulosa de Absorção (Escura) "Saco de Carvão". Ambos podem ser vistos a olho nu, em boas condições de visibilidade atmosférica.

A Caixinha de Jóias, também conhecido como Aglomerado Kapa-Crucis e cujo código no "Novo Catálogo Geral de Nebulosas é Aglomerados" é NGC 4755,  tem magnitude aparente integrada m=4,2. Seu tamanho angular é de apenas 10' (dez minutos de arco) e ele contém mais de 50 estrelas. As coordenadas de seu centro, para época J2000.0 são: Ascenção Reta 12h 53min 37,0s  e Declinação -60º 21' 22".

O Saco de Carvão é uma nebulosa de absorção (escura) bem grande, com 26,2 graus quadrados no céu e cerca de 300 x 400 anos-luz de extensão. Ele é facilmente visível contra o fundo esbranquiçado da Via-Láctea.

Abaixo encontram-se tabelados alguns dados sobre as 5 estrelas mais brilhantes do Cruzeiro.

ALGUNS DADOS DAS 5 PRINCIPAIS ESTRELAS DO CRUZEIRO DO SUL

Nome popular Magalhãnica ou Acrux Mimosa ou Becrux Rubídea ou Gacrux Pálida Intrometida
Nome oficial a-Crux b-Crux g-Crux d-Crux e-Crux
Magnitude Visual Aparente 0,83 1,25v 1,63 2,80v 3,59
Distância ao Sol em anos-luz 321 ± 20 353 ± 22 87.9 ± 1.6 364 ± 23 228 ± 9
Paralaxe Trigonométrica (“) 0,01017 0,00925 0,03709 0,00896 0,01430
Luminosidade Relativa 2456 ± 313 2861 ± 365 127 ± 5 809 ± 105 147 ± 11
Magnitude Absoluta -3,9 (A) -5 -0,5 -3 0
Índice de Cor B-V -0,163 mag -0,152 mag +1,548 mag -0,175 mag +1,423 mag
Classe Espectral B1 (A) B0 M3 B2 K2
Coordenadas Equatoriais (Época J200, ICRS)
- Ascenção Reta 12h 26m 35,8957s 12h 47m 43,2631s 12h 31m 09,9593s 12h 15m 08,7162s 12h 21m 21,6091s
- Declinação -63° 5' 56.730" -59° 41' 19.549" -57° 6' 47.562" -58° 44' 56.142" -60° 24' 04.137"
Componentes do Movimento Próprio (“/ano)
- Ascenção Reta -0,07824 -0,09550 +0,05138 -0,06997 -0,34661
- Declinação -0,01470 -0,01280 -0,26430 -0,01050 +0,09100
- Velocidade Radial (km/s) -11,2 +15,6 +21,3 +22,2 -4,6

 

__________________  F I M  __________________

 

RETORNAR

INÍCIO