ESPECTROS ESTELARES

por Renato da Silva Oliveira


Este texto foi criado em sua forma original na primeira metade dos anos 80 para um curso de Fundamentos de Astrofísica, na Escola Municipal de Astrofísica de São Paulo.

 

Todas as informações que podemos ter sobre as estrelas são obtidas a partir das radiações que recebemos delas aqui na Terra (ou, depois das sondas espaciais e dos satélites artificiais, nas proximidades dela). E, basicamente, podemos obter diretamente apenas 3 tipos de informações sobre as estrelas:

 

·         suas posições (o que inclui, em certos casos, suas velocidades);

·         seus brilhos (o que pode permitir determinar também suas temperaturas);

·         seus espectros eletromagnéticos (o que nos fornece pistas sobre suas composições químicas e suas estruturas físicas).


Uma outra informação direta mas não facilmente visualizável é a polarização das radiações.

 

Essas informações diretas, por sua vez, podem ser interpretadas à luz de complexos modelos físicos e matemáticos que redundam em uma quantidade gigantesca de outras informações, ainda que indiretas, fascinantes e muitas vezes surpreendentes.

 

ESPECTROS ELETROMAGNÉTICOS

Luz é a radiação eletromagnética mais familiar aos humanos, uma vez que, por definição, considera-se luz a toda radiação eletromagnética percebida pelo olho humano.

Apesar de que apenas em meados do século XIX (com os trabalhos de J. C. Maxwell, culminando com suas 4 equações de campo) a luz pode ser interpretada como um fenômeno eletromagnético – uma onda transversal num campo eletromagnético –, desde 1666 Isaac Newton já anunciava que ela podia ser composta ou decomposta em um “espectro” multicolorido. Decompondo a luz solar “branca”, Newton percebeu que ela era “composta” de várias “cores”, do vermelho ao violeta, passando pelo alaranjado, amarelo, verde, azul e anil, nessa seqüência. A essa composição de raios de luz coloridos, chamou-se espectro luminoso.

 

[ Figura 1  – Espectro contínuo da luz branca, do vermelho ao violeta. ]

 

Alguns anos mais tarde, em 1675, Newton apresentou ao mundo sua Teoria Corpuscular da Luz que, entretanto, não permitia explicar de maneira satisfatória a maioria dos fenômenos luminosos conhecidos naquela época, tais como a refração, a difração, e a interferência. Isso foi possível apenas 3 anos mais tarde, em 1678, quando C. Huyghens apresentou sua Teoria Ondulatória da Luz, associando a luz a uma onda transversal.

 

[ Figura 2 – Refração, difração e natureza ondulatória da luz. ]

 

Num suceder de novas descobertas nessa área de estudo, em 1800, W. Herschel percebeu a existência no espectro da luz solar de radiações não visíveis, contíguas ao vermelho. A essas radiações, chamou-se de infra-vermelhas. Apenas um anos depois, em 1801, J. F. Ritter percebeu a existência de radiações invisíveis contíguas ao violeta, que foram denominadas de ultra-violetas.

 

[ Figura 3 – Espectro contínuo da luz branca com indicação de IR e UV. ]

 

Mais um ano se passaria e, em 1802, Wollaston , usando um prisma como sistema dispersor, percebeu a existência de linhas (também chamadas de raias) escuras no espectro solar. Essas linhas foram observadas e estudadas também em 1814, por J. Fraunhöfer, que se utilizou de uma grade (ou rede) de difração como sistema dispersor e contou 754 delas. A partir de então, as linhas escuras do espectro solar passaram a ser conhecidas como raias de Fraunhöfer. Ele percebeu, ainda, que muitas das linhas escuras ocupavam as mesmas posições, no espectro, de linhas brilhantes produzidas em laboratório.

 

[ Figura 4 – Raias de Fraunhöfer. ]

 

O estudo sistemático dos espectros luminosos produzidos pelo Sol e por outros corpos quando aquecidos culminou com o enunciado, em 1859, das leis fundamentais da espectroscopia, por Kirchoff e Bunsen. Nesse ano, Kirchoff fez passar a luz proveniente de uma fonte de espectro contínuo através de vapor de sódio e pode observar 2 linhas escuras características (elas apareciam nas posições correspondentes ao que, atualmente, chamamos de linhas do sódio e podem ser facilmente observadas quando decompomos, num sistema dispersor, a luz proveniente das lâmpadas de sódio usadas na iluminação pública de estradas e vias expressas)..

As Leis da Espectroscopia de Kirchoff-Bunsen, como são conhecidas, são três e podem ser expressas siteticamente da seguinte maneira:

 

1.      Sólidos, líqüidos e gases a alta pressão, quando aquecidos, produzem espectros contínuos;

 

[ Figura 5 – Fonte de contínuo e espectro. ]

 

2.      Gases incandescentes a baixa pressão produzem espectros de linhas peculiares ao material – substâncias químicas – presentes no gás; Poderíamos, atualmente, fazer uma observação quanto à segunda lei, observando que além das linhas (finas ou espessas), podem ser formadas também “bandas”, ou faixas;

 

[ Figura 6 – Fonte de linhas (ou bandas) e espectro. ]

 

3.      Se a radiação proveniente de uma fonte de contínuo atravessa um gás a baixa pressão, as linhas deste superpõe-se ao contínuo da seguinte forma:

·         se o gás a baixa pressão é mais quente que a fonte de contínuo, as linhas são brilhantes (hoje, diríamos que as linhas produzidas são de emissão); a interação entre o gás e a luz da fonte de contínuo é positiva;

 

[ Figura 7 – Fonte de contínuo + fonte de linhas escuras e espectro. ]

 

·         se o gás a baixa pressão é mis frio que a fonte de contínuo, as linhas são escuras (que poderíamos chamar atualmente de linhas de absorção); a interação entre o gás e a luz da fonte de contínuo é negativa.

 

[ Figura 8 – Fonte de contínuo + fonte de linhas brilhantes e espectro. ]

 

 

Resumidamente, podemos dizer que, para produzir um espectro luminoso, temos que fazer passar a luz por um sistema dispersor, como, por exemplo, um prisma (refrator) ou uma rede de difração (interferométrica).

 

[ Figura 9 – Sistemas dispersores refratores e difratores. ]

 

Os espectros obtidos serão sempre contínuos (sempre de emissão) ou descontínuos (de linhas ou de bandas, de emissão ou de absorção).

 

[ Figura 10  – Diagrama de tipos de espectros. ]

 

Observando as estrelas e seus espectros, à luz das Leis de Kirchoff-Bunsen, P. A. Secchi, em 1863, sugere a primeira Classificação Espectral das estrelas. Em 1871, P. A. Secchi e outros pesquisadores fundam a Sociedade dos Espectroscopistas Italianos, cuja revista “Memória” passa a apresentar sistematicamente os dados por eles coletados.

Atualmente são conhecidas radiações eletromagnéticas não visíveis muito distantes do vermelho e do violeta. Sabemos que o que chamamos de luz, a parte visível do espectro eletromagnético das radiações, é apenas uma pequena “janela”, à qual o olho humano é sensível.

 

[ Figura 11 – Espectro completo das radiações eletromagnéticas e curva de sensibilidade do olho humano. ]

 

 

 

MODELO DE ESPECTROS ESTELARES

Ao fazermos passar a radiação proveniente de uma estrela por um sistema dispersor, como um prisma ou, mais apropriadamente, uma rede de difração, obtemos seu espectro eletromagnético, onde observamos linhas sobrepostas ao contínuo.

 

[ Figura 12 – Espectro típico de uma estrela. ]

 

Da interpretação do espectro, obtemos uma série de informações sobre as características físicas das estrelas e, particularmente, algumas referentes à composição química. A própria existência de linhas no espectro de uma estrela já indica uma de suas características: ela não está em equilíbrio termodinâmico. Se não, vejamos:

 

Os espectros contínuos são característicos de um corpo negro e os espectros de linhas são produzidos por transições de elétrons em um átomo ou pela combinação de elétrons livres com eles. Essas últimas são interações do tipo livre-livre (elétrons não ligados a átomos), ligado-livre (elétrons presos a átomos com elétrons livres) e livre-ligado (elétrons livres com elétrons presos a átomos).

A existência conjunta dos dois espectros sobrepostos nos indica que há, na estrela, um corpo negro emitindo o contínuo e, entre ele e o espaço interestelar, um meio interagindo com a radiação emitida e produzindo as linhas (ou, eventualmente, bandas).

Quando a interação do meio com a radiação é positiva, ocorre a formação de linhas de emissão (raias brilhantes); do contrário, ocorrem as linhas de absorção (raias escuras).

Há interação positiva quando o meio emite mais radiação, em determinados comprimentos de onda, do que recebe; e, negativa quando a radiação proveniente do corpo negro é absorvida, parcial ou totalmente, em certos comprimentos de onda pelo meio.

Ambas as interações são produzidas por processos atômicos dos tipo radiação-matéria (foto-excitação, emissão induzida, emissão espontânea, foto-ionização, recombinação radiativa) e matéria-matéria (excitação colisional, de-excitação colisional, ionização colizional, recombinação dos 3 corpos).

Se o meio e o corpo negro estiverem em equilíbrio termodinâmico, a taxa de emissão e a taxa de absorção do meio seriam iguais.

Chamando de K ao coeficiente de absorção e de J ao coeficiente de emissão do meio, podemos escrever: Se K=J => ET. Ou seja, se os coeficientes de absorção e de emissão do meio são iguais, o meio está em equilíbrio termodinâmico com o corpo negro.

 

[ Figura 13 – Equilíbrio termodinâmico. ]

 

Na Terra nos chega a radiação proveniente do meio, ou seja, a parcela de radiação de corpo negro que não interage com o meio, mais a radiação emitida pelo próprio meio.

A radiação In0  de um corpo negro é dada pela equação de Plank:

 

In0 = 2hn03 / ( c2.(ehn0/kT – 1))

 

In0, é a intensidade específica, dada dimensionalmente por energia por área por tempo por freqüência por ângulo sólido;

h é a constante de Plank;

c é a velocidade da luz no vácuo;

e é o número de Euler, base dos logaritmos naturais, ou neperianos;

k é a constante de Boltzman;

 

A radiação In, que atravessa o meio sem interagir é:

 

In = In0 . e -tn

 

Onde t (uma espécie de “medida” da transparência do meio) é um parâmetro relacionado a K (o coeficiente de absorção) através de:

 

dt = -K . n . dz

 

t é relacionado, portanto, à transparência do meio e denomina-se profundidade óptica.

A parcela absorvida pelo meio é dada por:

 

In0 - In0.e -tn =  In0 . (1 -  e -tn)

 

Essa parcela produz parte da emissão própria do meio, que é dada pela função fonte Sn:

 

Sn = Jn / Kn . (1 -  e -tn)

 

Somando as duas parcelas temos:

 

Inobservado = In0 . e -tn + Jn / Kn . (1 -  e -tn)

 

É facil verificar que quando Jn > Kn ocorrem linhas de emissão e quando Kn > Jn ocorrem linhas de absorção.

Analisando, na equação acima, os casos limites, temos:

 

1.      tn = 0 => Inobservado = In0                            (o meio é um vácuo e o espectro é contínuo, produzido somente por In0);

 

2.      tn ® pequeno => e-tn = 1 – tn + ...              (o meio produz linhas, que podem ser de emissão, quando o gás é de alta emissividade, ou de absorção, quando o gás é de baixa emissividade, e In0 produz o contínuo): Inobservado = In0 + tn . ( Jn / Kn – In0 );

 

3.      tn ® µ => Inobservado = Jn / Kn                   (o meio está em equilíbrio termodinâmico com o corpo negro que emite o espectro contínuo e o espectro resultante é, também, contínuo; o meio absorve completamente In0 e emite em função de Jn. Esse tipo de tn acontece em meios muito densos — condição para Equilíbrio Termodinâmico — e opacos).

  


 

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