O Que É Ficção Científica

por Renato da Silva Oliveira

Este artigo surgiu a partir de uma palestra realizada por mim, no Planetário de Campinas, em meados dos anos 90 e foi publicado, em versão ligeiramente diferente, na revista SCORPIUS, ano III, nº 13,  de janeiro/fevereiro de 1998.

Era ainda recente a minha passagem pela Editora Aleph, onde participei da produção de vários livros de Ficção Científica, muitos dos quais na conhecida Coleção Star Trek, em que as estórias se passavam dentro do universo ficcional de Jornada nas Estrelas. Eu era, portanto, relativamente conhecido entre os aficcionados desse seriado de TV e me incluía entre eles.

Entretanto, era conhecida, também, minha posição crítica em relação à qualidade e mesmo ao caráter “científico” da maior parte das histórias de Star Trek, tanto as televisivas quanto as cinematográficas e  as literárias. Essa minha “traição” ao gênero e à série gerou, por parte dos fãs mais fanáticos, uma certa animosidade em relação a mim e/ou à essas minhas idéias.

Foi dentro desse contexto, e considerando os fãs incondicionais entre os leitores, que o texto a seguir foi concebido.

Poster publicitário da séria "Next Generation" (A Nova Geração), que fez tanto ou mais sucesso que a série clássica de Star Trek (Jornada nas Estrelas). Notem a inusitada (e fortuita) semelhança do Comandante Riker (segunda linha à direita) com o autor (compare com a  foto no artigo "Crux Australis — O Cruzeiro do Sul").

Como eu era, ao menos dentro do ninho da serpente, voz solo, recorri sempre que pude às muletas intelectuais de outros fãs de ficção científica que, como eu, exercitam o velho e bom senso crítico, e que são reverenciadas por sua autoridade intelectual. Assim, clamei pelo socorro do querido e saudoso Carl Sagan, de Stephen Hawking, de Arthur Clarke, de Isaac Asimov, e de outros, através de inúmeras citações, obviamente, escolhidas criteriosamente de seus pronunciamentos para agirem a meu favor.

 


 

Definir ou conceituar termos e expressões cujo significado é relativamente simples e consensual, como os que ocorrem, em geral, na Matemática e na Ciência, é, muitas vezes, uma tarefa trabalhosa e inglória.

O que dizer, então, da tentativa de melhor conceituar termos e expressões cujos significados estritos são, já em seus nascedouros, difusos, parcimoniosos e imprecisos?

Há várias coisas a se dizer: é loucura, é besteira, é idiotice, é perda de tempo... Ou, sendo mais eufêmico: é excesso de purismo (puritanismo?), é preciosismo, é elitismo...

 

"A Queda de Ícaro", 1974, de Marc Chagal.
Seres e histórias fantásticas são imaginados desde tempos imemoráveis por povos de origens distintas.

 


O ATOLEIRO DAS DEFINIÇÕES

No caso específico de “Ficção Científica”, além de ser uma expressão composta de dois termos de significados por si só imprecisos, não consensuais, há uma dispersão extra de seu significado devido ao seu uso freqüente pelos media de comunicação.

Mais agravante ainda, media de comunicação da pior qualidade, normalmente preocupados apenas em serem facilmente "digeríveis" pelo público ao qual se destinam!

Não é sem razão que, historicamente, a Ficção Científica foi considerada arte ficcional de segunda categoria.

Por mais que bufem, gritem e esperneiem os fãs incondicionais da SF (ou SciFi, que para os “iniciados” é Scientific Ficcion, ou Ficção Científica), essa pecha, essa reputação, não é gratuita, por mero preconceito (pré-conceito). É por pós-conceito mesmo!

Antes que alguns leitores parem de ler por aqui (por puro pré-conceito!), confesso-me, eu mesmo, fã de Ficção Científica — e, em menor grau, de Fantasia, também.

  

  

Revistas de Ficção Científica quase sempre estiveram repletas de contos estapafúrdios e de péssima qualidade literária — sob qualquer critério — onde a Ciência era mal caracterizada e relegada apenas a pano de fundo.

 

Conheço poucas pessoas que já leram tantos livros, viram tantos filmes ou se interessam tanto por esse gênero quanto eu (o Prof. Pierluigi Piazzi, por exemplo). Entretanto, até mesmo por ser fã, realmente, de Ficção Científica, eu não sou um fã incondicional.

Não tenho o menor receio em afirmar que boa parte do que se chama de ficção científica é péssima literatura, péssimo cinema ou péssima arte, em geral. Nem receio em afirmar que grande parte sequer é ficção científica!

Pois bem. Foi em grande parte, nos meios de comunicação “capengas” e entre um público não muito credenciado a falar sobre Ciência que se moldou, historicamente, a expressão “Ficção Científica”.

Não há dúvida que tentar conceituar melhor e mais precisamente essa expressão é como afundar num atoleiro (não apenas teórico, mas passionalmente prático).

Vale a pena?

Creio que sim!

E cabe aqui uma justificativa para isso.  

 

Personagens de "Ao Redor da Lua" de Jules Verne, ignorando a Física conhecida desde o século XVII, "flutuam" repentinamente. Na época em que Jules Verne escreveu seus contos, a Física Newtoniana era conhecida há séculos e era ensinada na escola básica. Mesmo assim, em seus livros, encontram-se várias afirmações errôneas, junto com descrições de cenas estapafúrdias, com a representada acima. Nada auspicioso para quem é, por vezes, considerado o "pai" da ficção científica. 

 


VALE A PENA TENTAR CONCEITUAR A EXPRESSÃO "FICÇÃO CIENTÍFICA"?

 

Certamente a postura mais fácil é ser eclético e contemporizar ao máximo. Agradar ao máximo: a gregos, troianos, baianos e gaúchos.

Seria muito fácil argumentar: os livros e filmes estão aí e é impossível e desnecessário classificá-los; portanto, sejamos mais práticos, mais maleáveis, mais complacentes e aceitemos, inertes e inermes, que se chame de “Ficção Científica” o que se queira chamar.

Mas, apesar de mais fácil, vamos evitar esse caminho!

Ao longo da minha vida, sempre evitei o quanto pude as certezas. Sempre as achei enganadoras, a médio e longo prazo. Entretanto, a cada momento é necessário assumir uma “certeza provisória”, usada para a tomada de decisões, muitas delas imediatas.

Quando necessário, nunca me furtei a assumir claramente posições com relação a qualquer assunto e, muitas e muitas vezes, essa postura acabou me trazendo “dores de cabeça”.  

Minhas posições nem sempre estão de acordo com a da maioria; muitas vezes não agradam à maioria; e algumas vezes incomodam a maioria.  

Porém, eu não jogo apenas para a platéia! Isto é, ao menos, não para toda a platéia! E portanto, não há muito problema em assumir e externar opiniões sobre temas apaixonantes, como Ficção Científica. 

Como eu tenho uma posição (uma “certeza provisória”) clara, ao menos para mim, sobre o que é e o que não é Ficção Científica, não estaria sendo correto, sob meu ponto de vista, ao contemporizar e furtar-me a expressá-la.  

Esse é o meu motivo pessoal para lançar-me ao “atoleiro” que é tentar conceituar a expressão “Ficção Científica”.

Mas há, também, motivos mais objetivos.  

Nós, todos que usamos a língua, que nos comunicamos, somos sujeitos da formação e transformação da língua! Somos agentes, ativos, e não meros objetos, passivos, ou simplesmente observadores.  

A língua é o que seus agentes a fazem e, sob esse ponto de vista, nossa responsabilidade na conceituação de termos e expressões, mesmo os não muito precisos e consensuais, é muito grande.

Não devemos, todos nós, nos furtarmos a essa responsabilidade. Nós, usuários da língua, somos agentes sobre ela.

A expressão “ficção científica” é usada nos mais diversos meios de comunicação, nos mais diversos contextos e pelos mais diversos tipos de pessoas.

Independentemente do uso comum, vulgar, dessa expressão, há um significado menos difuso, mais preciso, para ela. Esse significado é radicalmente oriundo dos etmos das palavras que a compõem e independe do uso. É esse significado, denotativo, que devemos procurar primeiro. É esse o significado a ser recuperado para, a partir dele, definir limites para eventuais outros significados conotativos.

Mesmo quando uma esmagadora maioria comete consensualmente um erro, ele não passa a ser um acerto.

Há uma infinidade de exemplos históricos que nos mostram claramente que as maiorias podem errar conjuntamente, quase em uníssono.  

Na própia literatura, inclusive na ficção científica, há inúmeros exemplos de "alertas" para esse "comportamento de manada", sugerindo sempre que devemos procurar evitá-lo.

Há, também, exemplos recentes de difusão de erros crassos por meios de comunicação influentes, formadores de opinião, como jornais, escritos e televisivos, de circulação e assistência em âmbito nacional.  

Expressões grotescas como mídia, multimídia, miniplaneta, microgravidade (usada sem critério), etc, são exemplos notórios de como os media de comunicação podem ser nefastos à língua.

Não há necessidade de nos rendermos aos “fatos consumados” e engolir passivamente essas besteiras. 

Assim, também, não há necessidade de contemporizar quanto ao uso vulgar da expressão “ficção científica”.

Vale, sim; vale muito, a pena, tentar conceituar melhor essa expressão.

Vamos, então, finalmente ao atoleiro.

Tentemos conceituar “Ficção Científica”.

A história da humanidade é pródiga em exemplos de erros coletivos, cometidos quase pela unanimidade de milhões de pessoas. É até mais fácil errar coletivamente, pelo reforço mútuo na convicção equivocado do acerto, do que individualmente. Atribui-se a Nelson Rodrigues o dito de que "toda unanimidade é burra", assim com aos romanos o dito de que "o senado é uma instituição estúpida formada por cidadãos notáveis"; ambos alertam para a maior facilidade dos erros coletivos.
A Ficção Científica também nos alerta para a facilidade dos erros coletivos: Admirável Mundo Novo, Solient Green,Gataca,etc.

Adolf Hitler passa em revista tropas do eixo. Nas Guerras, no mínimo um dos lados — o que perde — comete equívoco coletivo.

Imagens de tropas em ordem unida durante a Segunda Guerra Mundial (acima), confundem-se com imagens fictícias da versão cinematográfica tardia do clássico "Eu Robot" de Isaac Asimov (abaixo).

Na versão cinematográfica, a quase concretização do mundo complexo e maravilhoso vislumbrado por Asimov em seu livro de maior sucesso.

 

Capas de 2 versões de "Eu Robot" — "I Robot", no original. Ficção científica da melhor qualidade, escrita para entreter e fazer sonhar mas sempre com a Ciência permeando, ao fundo e em primeiro plano, o enredo, as ações e as conjecturas dos personages.


 

FICÇÃO CIENTÍFICA: O QUE PODE NOS DIZER UM DICIONÁRIO

Se focalizarmos o significado imediato dessa expressão, podemos obter uma conceituação superficial (e mesmo, supérflua) como as que encontramos em qualquer dicionário medíocre (no sentido de estar próximo à média), como o “Aurélio”, que parece “Help on line  de programa da Microsoft: contém informações simples (em demasia), claras (mas nem tanto) e óbvias (mas não para todos); absolutamente corretas e precisas, mas que não acrescentam e, por conseqüência, não servem para, quase absolutamente, nada.

·         Ficção =      não real,
                         fingimento,
                         imaginário,
                         fantasia.

            Científica =   de caráter
                         científico; que
                         tem inspiração
                         ou origem na
                         Ciência.

 

A partir dessas definições, a “Ficção Científica” poderia ser descrita então como:  

Ficção com inspiração na Ciência,
cujo enredo se desenvolve em função do desenvolvimento
científico, no espaço e no tempo
”.

 

Esse é o tipo de conceituação quase inútil, “dicionaresca”, e “intelectualóide”.

Serve para que cada um entenda o que quiser e, num pacto silencioso, finja que entendeu o que acha que os outros esperam que ele tenha entendido.

Fujamos, também, desse tipo de conceituação.

"Perdidos no Espaço" — "Lost in Space", no original —,  um dos mais famosos seriados de TV dos anos 60, está repleto de referências à Ciência e às tecnologias. Entretanto, a despeito da ambientação numa nave espacial viajando por outros planetas, as ações e as reflexões de seus personagens são tão contundentemente estapafúrdias que, mesmo com grandes concessões, podemos caracterizá-lo apenas como "fantasia científica".

 

Tanto no seriado de TV quanto na versão para cinema ou na versão literária de "Lost in Space", a Ciência e as tecnologias são meros figurantes que passam longe do enredo principal, e ainda assim, distorcidos e quase descaracterizados.

 

 


 

FICÇÃO CIENTÍFICA HARD, SOFT E FANTASIA CIENTÍFICA

Uma tentativa de compreender melhor um conceito por trás de uma expressão é estudar como ela é usada, em quais situações e sob quais variações. De muitas conotações, podemos tentar extrair a denotação (o caminho inverso ao que queremos, de fato, trilhar posteriormente).

Com esse enfoque, pode-se não apenas conceituar a expressão “Ficção Científica”, mas, ainda que com grande imprecisão, falar em subclasses, como ficção científica hard, ficção científica soft e fantasia científica (outras muitas classificações são possíveis)

O termo hard seria, então, usado para a ficção científica onde o pano de fundo para o desenvolvimento do enredo é fundamentado em uma ciência hard (exata), como a Física, a Química, parte da Biologia, e as tecnologias associadas a essas áreas da Ciência (engenharia, medicina, etc).

Se o pano de fundo é uma das chamadas “ciências” humanas, como a sociologia, a antropologia, etc, a ficção científica é soft.

A expressão fantasia científica seria aplicada quando a “ciência” envolvida e subjacente ao enredo não corresponde à Ciência real ou a projeções minimamente consistentes, futuras ou passadas, da mesma, mas sim uma “ciência” fictícia.  

Esse tipo de abordagem pode ser encontrada de forma mais detalhada e mais extensa num livro básico e fundamental para quem quer se aprofundar no assunto: “Science Fiction Reader’s Guide”, de L. David Allen, lançado no Brasil pela Summus Editorial com o nome: “No Mundo da Ficção Científica” —  provavelmente, encontrado ainda em algumas bibliotecas e sebos.  

Gonzales, o (anti) herói da obra de Godwin, é içado ao céu, rumo à Lua, por uma revoada de gansos. Exemplo típico de fantasia, apesar da viagem à Lua.

 


 

FICÇÃO CIENTÍFICA APOLÍNEA, DIONISÍACA E METAFÓRICA

Nessa mesma linha, com enfoque apenas ligeiramente diferente, o escritor (de ficção científica, inclusive) e membro da Academia Paulista de Letras, Rubens Teixeira Scavone fala-nos, também metaforicamente, em ficção científica apolínea (embasada em ciências exatas, na racionalidade e na objetividade), ficção científica dionisíaca (embasada em “ciências” humanas e conjecturas circunstanciais e subjetivas) e ficção científica metafórica (algo semelhante à fantasia científica, com liberdade aos mais inonseqüentes delirios). Os textos "entre parênteses" acima correspondem ao que eu entendi após ouvir de Scavone uma curta explanação sobre o tema num desses encontros de aficcionados nos anos 90.

Se, por um lado, é certo que no fazer Ciência há margem para conjecturas e delírios intelectuais, inspirados pelas mais diversas motivações — como bem se pode reconhecer nos textos mais conhecidos de Thomas Khun e Paul Feyrabend—, também é certo que na Ciência objetiva, comunicável, o crivo das refutações tem que ser vencido — como bem mostra a obra de Karl Popper — e a imaginação, os delírios intelectuais e as metáforas ficarm aprisionados numa espécie de "camisa de força" que impõe limites ("condições de contorno") rígidos dentro dos quais se pode transitar.

Assim, no fazer Ciência tem-se liberdade para, digamos, sonhar. Mas no comunicar Ciência, no apresentar Ciência, objetividade e racionalidade são exigidas, necessárias e suficientes.

Qualquer ficção que se pretenda "científica" deve refletir esse comportamento característico do fazer e do comunicar Ciência, de modo que me parece estranho falar em "ficção científica metafórica" ou "ficção científica dionisíaca".

Viajante espacial indo ao "Reino do Sol" numa bolha. Ilustração do livro de Cyrano de Bergerac: "Viagem aos Impérios do Sol e da Lua".


 

FICÇÃO CIENTÍFICA COMPARADA — TEMPO, ESPAÇO E PERSONAGENS

Pierluigi Piazzi, físico, escritor e editor, além de professor e um dos maiores conhecedores de ficção científica do Brasil (e, sem exagero, do mundo) aprecia uma outra forma de classificação, bem mais abrangente, que nos permite situar melhor a ficção científica através da comparação com outros tipos de ficção.

Situando o enredo em relação aos personagens, e também no tempo e no espaço, podemos dizer que toda ficção ordinária se passa no tempo presente ou no tempo passado, o espaço é sempre a Terra (e, atualmente, o espaço próximo a Terra e a Lua, esta também inclusa), e os personagens são sempre animais ou seres semelhantes aos que existem ou existiram, realmente, na Terra (humanos ou não).

A contrapartida da ficção ordinária é a Ficção Livre (essa é apenas uma das possíveis designações), que tem, como espaço, qualquer espaço; como tempo, qualquer tempo; e como personagem, qualquer personagem.

“Qualquer” quer dizer exatamente “qualquer”, existente ou não, possível ou não de existir, animado ou inanimado, etc, sem nenhuma restrição, a não ser aquela concernente a capacidade de imaginação humana.

Nesse caso, dentro da ficção livre, apareceriam, como subclasses, a fantasia, a ficção científica, as fábulas, as mitologias, o realismo fantástico, etc.  

Essa classificação nos permite uma visão mais abrangente, mais distante, mais completa, porém mais superficial da ficção científica.  

Uma outra afirmação interessante do Prof. Pier diz que “Ficção Científica é a ficção na qual a Ciência é um dos ' personagens' ”.

Muito boa para suscitar reflexões profundas mas não muito esclarecedora, na prática.

Será que pode ser um personagem de papel secundário e irrelevante? Ou tem que ser o personagem principal?

Em qualquer enredo, em qualquer trama narrativa, podem existir personagem essenciais e supérfluos.

Eu acrescentaria, no mínimo, à assertiva do professor Pier, que a na ficção científica a Ciência tem que ser um "personagem" essencial, mesmo que não necessariamente o principal. 

 

Em outra antológica viagem à Lua, desta vez em "Orlando Furioso", o herói, numa carruagem, é içado por cavalos. Alguém ousaria caracterizar essa obra de Ludovico Ariosto como "ficção científica"?

 

Leitura obrigatória sobre ficção científica, infelizmente encontrado apenas em sebos e bibliotecas.


 

DE VOLTA AOS ETMOS

Outro caminho que reputo mais rico e proveitoso, porém mais árduo, é ir um pouco mais a fundo nos significados próprios, denotativos, das palavras na expressão “Ficção Científica”.

O termo “ficção” é menos controverso, seu significado é mais acessível.

O termo “científica”, ao contrário, é extremamente mal compreendido e, quase sempre, inacessível à grande maioria das pessoas. Por isso, é quase sempre negligenciado.  

Muito da confusão e da controvérsia sobre ficção científica deve-se, na verdade, à confusão e controvérsia sobre o que é e o que não é científico; o que é e o que não é Ciência; o que é Ciência e o que é Tecnologia; como a Ciência funciona; quais as distinções entre cientistas, pesquisadores, técnicos, etc. A grande maioria dos que se dizem leitores de ficção científica não sabe o que é Ciência. Acha que médicos, engenheiros e astronautas são cientistas e que a Nasa é o supra-sumo da Ciência no mundo. Não pode, desse modo, caracterizar o que significa o “científica” da expressão “Ficção Científica”.  

A despeito de alguns “cientistas” sociais, que insistem em tentar tornar o significado do termo “científico" tão difuso e inexpressivo — pela perda de conteúdo — quanto tantos outros termos que usam em seus textos, a própria prática científica impede que isso ocorra.

Esse é um tema para uma outra longa, deliciosa e acalorada conversa, porém, inoportuna no momento.

Por ora, lembremos apenas que “a ciência é antes uma maneira de pensar do que propriamente um conjunto de conhecimentos” — emprestando as palavras de Carl Sagan.  

Não basta ter como cenário uma nave espacial, ou um longínquo planeta, com seres alienígenas que usam armas lasers (ou phasers), para caracterizar um enredo de Ficção Científica. É necessário, é essencial, que a lógica subjacente a todo o enredo seja embasada na forma de encarar e pensar o Universo (ficcional ou não) da Ciência.

Isso é o que, tecnicamente, chama-se de epistemologia científica. É básico e fundamental (mas não suficiente) que a epistemologia científica esteja presente no universo ficcional no qual se desenvolve o enredo para caracterizá-lo como “Ficção Científica”.  

Não importa se a ambientação é numa nave espacial ou numa caverna, não importa se a tecnologia presente é um phaser e um tricorder ou um pedaço de osso usado como martelo, não importa se os personagens são robôs, andróides e seres com orelhas pontudas, ou simplesmente hominídeos ou seres humanos primitivos habitantes da savana africana de 100 mil anos atrás; na ficção científica, é a presença da epistemologia científica, da maneira de fazer e pensar do cientista que tem que estar presente, ora explicitamente, ora implicitamente, mas tem que estar presente.

E essa maneira de observar e pensar, inerente aos verdadeiros cientistas, a despeito das inúmeras interpretações teóricas que se lhe possa atribuir, não mudou ao longo da história humana, desde que surgiu formalmente. Usarei aqui uma das muitas muletas intelectuais que reforçam esse ponto de vista, a partir das palavras de Jacob Bronowski:

"Como disse, a descoberta mais notável já feita pelos cientistas foi a própria Ciência. Vale a pena, portanto, considerar a história dessa descoberta, que se fez em dois períodos: o primeiro, na idade de ouro da Grécia, entre 600 e 300 a.C.; o segundo, a partir da Renascença, impulsionado pelo redescobrimento das obras gregas de matemática e filosofia."

Desde o século VI a.C. — quando, entre os sábios da Escola Jônica, na Grécia Antiga, surgiu talvez a maior aquisição intelectual do gênero humano: o raciocínio lógico-dedutivo — até nossos dias, o pensamento científico não mudou!

O que mudou foi a própria Ciência, suas teorias, o conhecimento acumulado, a precisão da observações, as tecnologias desenvolvidas e utilizadas, etc.

A epistemologia científica, na teoria e na prática, não mudou!

E é a epistemologia científica que caracteriza melhor a ciência, e que a distingue facilmente das pseudo-ciências, das não-ciências e das anti-ciências, tão presentes em obras como "Viagem à Lua", "Arquivo X", "X-Men", "Star Wars", para citar apenas alguns exemplos conhecidos em meios de comunicação de massa distintos, dentre tantos e tantos outros.

Nas antigas mitologias hindus encontramos referências a seres de outros mundos, onde realidades regidas por regras diferentes das que atribuímos ao nosso Universo ordinário servem como pano de fundo para estórias fantásticas e maravilhosas. Quem não leu deve ler o Baghavad Gita, o Srimad Baghavatan e os Upanishads. Além de fascinantes, essas obras estão repletas de profunda sabedoria, a despeito do parco conhecimento.

Em várias outras mitologias, normalmente de origem religiosa, encontramos o mesmo tipo de referência. Na Bíblia, no Talmud, no Corão, no Tao Te King, também.  

Nem por isso, podemos caracterizar qualquer uma dessas obras como “Ficção Científica”.

Na literatura dos séculos passados, encontramos vários exemplos com referências a outros planetas, outros universos, etc.

“Viagem aos Impérios do Sol e da Lua”, de Saviniano Cyrano de Bergerac, nos descreve uma viagem espacial séculos antes de Jules Verne.

“Micrômegas”, de Voltaire, nos descreve seres de outros planetas, e, curiosamente, muitos anos antes da descoberta, descreve a existência de dois satélites naturais em Marte. Provavelmente, Voltaire (como Swift e Godwin) conhecia a hipótese de Kepler sobre a quantidade de luas desse planeta.  

Mas Cyrano de Bergerac e Voltaire estão longe de serem escritores de ficção científica. Com muita concessão, muita mesmo, podemos dizer que “Micrômegas” e “Viagem aos Impérios do Sol e da Lua” são fantasias científicas.  

Nem o fato de haver em “Micrômegas” a previsão (fantasticamente correta) da existência dos dois satélites de Marte faz da obra ficção científica.

Olhando sem passionalidade (ou, ao menos tentando) para muitas das obras de Edgar Alan Poe, Jules Verne, H. G. Wells, Mary Shelley, etc, sem sermos complacentes, é difícil caracterizá-las como ficção científica.  

O mesmo vale para Flash Gordon, Superman, Nacional Kid, Ultraman, Ultra-7 (UltraSeven), Perdidos no Espaço, Robô Gigante, Star Wars (olha a paixão da vez aqui!), Brasinhas do Espaço, Os Jetsons, De Volta Para o Futuro, Wolferine e demais X-man, etc. No máximo, são fantasias científicas (ou metafóricas) com raríssimos elementos de ficção científica.

Falta, em todas essas obras, reflexão e ação enquadradas na epistemologia científica.

O ambiente, os artefatos, podem até remeter à Ciência e/ou à tecnologia, mas os personagens, suas reflexões e suas ações, estão distantes disso.

Num outro patamar estão obras com algumas características híbridas de ficção científica e fantasia.

O maravilhoso “Duna”, de Frank Herbert, é uma mistura sutil de Ficção Científica da melhor qualidade com fantasia insuficiente para descaracterizá-lo. Star Trek (Jornada nas Estrelas) é outro exemplo, onde encontramos estórias com misturas variadas de Ficção Científica e Fantasia.  

O universo ficcional de Star Trek é, atualmente, tão vasto que, mesmo sendo um dos mais detalhados já construídos pela mente humana, permite episódios de ficção científica genuína e outros de pura fantasia, além dos mesclados com maior ou menor participação de uma ou outra modalidade de arte.

Os fãs, em menor ou maior grau, não gostam dessa constatação. Muitos preferem considerar como dogma (ou axioma) que o que está em Star Trek é ficção científica e ponto final. Tentam, a partir disso, conceituar o que é e o que não é Ciência, o que é e o que não é científico, adaptando forçadamente teorias científicas para que estas caibam, ainda que deformadas e já capengas, naquele universo ficcional.

Em contrapartida, há obras nesse mesmo universo ficcional nas quais a fantasia, quando presente, é quase imperceptível, e a ficção científica é claramente caracterizável pela presença marcante da epistemologia científica.  

  • “2001 — Uma Odisséia no Espaço”, “As Fontes do Paraíso”, “Encontro com Rama”, “O Fim da Infância”, “A Cidade e as Estrelas”, “O Vento Solar”, e muitos outros livros de Arthur C. Clarke;
  • “O Fim da Eternidade”, “Fundação”, “Eu, Robot”, “O Cair da Noite”, “A Última Pergunta”, e inúmeras outras obras de Isaac Asimov;
  • “Um Cântico para Leibowitz”, de Walter M. Miller Jr.;
  • “Babel-17”, de Samuel R. Delany;
  • “Solaris”, de Stanislaw Lem;
  • "A Guerra do Fogo", de J. H. Rosny;
  • "O Jogo do Exterminador" e "Orador dos Mortos", de Orson Scott Card;
  • “Missão de Gravidade”, de Hal Clement;
  • “A Mão Esquerda da Escuridão” e “Os Despossuídos”, de Ursula K. Le Guin;
  • Slaughterhouse Five”, de Kurt Vonnegut Jr.;
  • “Contato”, de Carl Sagan;
  • e muitas outras obras magníficas que a memória me impede de relacionar, aqui e agora, são exemplos de ficção genuinamente científica, com forte presença da epistemologia científica subjacente às reflexões e ações dos personagens, além de referências mais ou menos fortes a ambientes e engenhos tecnológicos.  

O lançamento da cápsula espacial da "Viagem à Lua", de Jules Verne, teria esmagado todos os tripulantes sob seus próprios pesos. Qualquer aluno medíocre do Gymnasium da época podia facilmente chegar a essa conclusão, usando conhecimentos do século XVII (ensinados atualmente na 8ª série do Ensino Fundamental e no Ensino Médio. É correto chamar essa obra de "ficção científica"?

 

     

À esquerda, um habitante de Vênus, numa representação do século XIX. À direita, uma representação contemporânea de um gnômo. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

 

"Admiramos a Grécia antiga porque fez nascer a ciência ocidental. Lá, pela primeira vez, se inventou a obra-prima do pensamento humano; um sistema lógico, isto é, tal que as proposições se deduzem umas das outras com tal exatidão que nenhuma demonstação provoca dúvida." 

Palavras de Albert Einstein, usadas aqui como muleta intelectual para destacar a impotância, a peculiaridade e a permanência da epistemologia científica ao longo de milênios.

 

     

À esquerda, habitante de Marte, em representação do século XVIII. À direita, uma astronauta, segundo representação do século XIX.
Note-se a preocupação com o ar  (capacete e máscara) mas a ingênua ignorância acerca da baixíssima pressão (ausência de traje pressurizado).

 

"Acredito que eu tenha hoje a mesma sede de maravilhas dos meus 10 anos de idade. Mas desde então aprendi um pouco a respeito do modo como o mundo realmente se ajusta. Acho que a ficção científica me levou à Ciência. Considero a Ciência mais sutil, mais intrincada e mais impressionante que grande parte da ficção científica."

"E a idéia de um cruzamento bem sucedido entr um ´vulcaniano´e uma terrestre simplesmente ignora tudo o que hoje sabemos sobre biologia molecular. ... tal cruzamento tem a mesma probabilidade de sucesso de um acasalamento entre um home e uma rosa."

Carl Edward Sagan

 

   

   

   

Acima, de cima para baixo e da esquerda para a direita, capas de alguns livros maravilhosos de ficção científica da melhor qualidade. "Solaris", "A Guerra do Fogo" e "Jornada nas Estrelas — A Terra Desconhecida" têm versões cinematográficas também explêndidas.


 

UM PONTO DE VISTA PESSOAL

Essa caracterização da Ficção Científica pela presença maior ou menor da epistemologia científica na reflexão e na ação dos personagens é, talvez, uma posição muito pessoal, não obstante seja objetiva, desde que se resolva antes a questão sobre o que é e o que não é Ciência, o que é e o que não é científico.

De maneira geral, o processo de elaboração da Ciência se dá de maneiras distintas em diferentes épocas e locais, por razões e motivações as mais diversas, pessoais e subjetivas e/ou racionais, objetivas e históricas. Khun e Feyrabend dão pistas para entendermos  o processo do "fazer Ciência".

Entretanto, a comunicação científica, isto é, a Ciência pronta, comunicável, tem que ser e é objetiva e falseável, como ensina Popper.

Apesar de ser difícil de conceituar o que é "Ciência", o que é e o que não é "científico", é mais ou menos fácil selecionar algumas características marcantes do pensamento científico que, se não apontam com certeza o que é Ciência, permitem ao menos eliminar como imposturas grande parte do que não é Ciência, principalmente quando se quer passar como tal para gozar de maior autoridade junto aos leigos.

Vejamos a seguir algumas dessas características — invariantes no tempo, pois verificam-se em todas as épocas e lugares, desde que o modo de pensar da Ciência surgiu na Grécia Antiga —, lembrando que o termo "Ciência" será usado sempre com referência à "Ciência pronta", comunicável, objetiva,  falseável:

  • Tudo, em Ciência é teoria; não existem fatos ou processos 100% certos ou 100% errados e nem afirmações 100% verdadeiras ou 100% falsas  a não ser dentro de modelos teóricos da realidade. Em outras palavras, as afirmações ("Leis") da Física e das demais áreas da Ciência só têm validade dentro de modelos específicos.
    Muitas pessoas se espantam ao ouvir, ainda hoje, falar-se em Teoria da Gravitação Universal, Teoria da Relatividade, Teoria Quântica, Teoria da Evolução, Teoria do Big Bang, Modelo Standard, Modelo Copernicano, Modelo Inflacionário, Modelo Atômico de Bhor, etc.
    Para tentar clarear, vejamos, como exemplo, a 1ª lei de Kepler: "Todas as órbitas dos planetas são elípses nas quais o Sol ocupa um dos focos". Obviamente, sabemos que, de fato, as órbitas dos planetas não são elípses! É relativamente simples provar isso observacionalmente ou através de cálculos. Mas dentro do modelo kepleriano, as órbitas são exatamente elípses. A afirmação é verdadeira dentro de determinado arcabouço teórico e serve, na prática, apenas como hipótese de trabalho.
    Toda verdade, toda afirmação, em Ciência, é relativa à alguma modelo teórico da realidade e nem sequer a observação e experimentação estão livres dos modelos teóricos!
  • A Ciência procura, sempre, explicações em termos de causa-efeito, o que a leva, sempre, a procurar reduzir qualquer fato ou fenômeno a causas básicas, elementares. A busca desenfreada, empreendida pelos físicos desde o final do século passado, por uma teoria final, única, definitiva, é a constatação mais evidente dessa busca da Ciência por uma causas primeira, primeva, elementar. 
    A Ciência é, portanto, extremamente reducionista!
  • Busca, sempre, reduzir fatos e fenômenos, pressupostos complexos, em fatos e fenômenos elementares. E isso é uma de suas grandes qualidades!
    Mesmo em fenômenos sistêmicos, onde aparecem propiedades emergentes aparentemente não dedutíveis às propriedades dos elementos do sistema, temos hoje algumas tentativas de explicações baseadas na Teoria do Caos e similares.
  • Por outro lado, quanto maior a aplicabilidade de uma teoria mais fundamental ela é. Assim, as grandes teorias são sempre universais. A Teoria da Gravitação Universal de Newton, tem universal até no nome; a Teoria Quântica, a Teoria Química da Matéria, a Teoria da Relatividade, a Teoria da Evolução, a Teoria do Big Bang, etc, são todas universais; têm como escopo de aplicabilidade todo o Universo!
    Assim, a Ciência é generalista!
    Isto é, procura sempre ampliar, o mais possível, o escopo de suas afirmações.
  • A estrutura histórica do desenvolvimento das teorias científicas pode ser comparado ao formato da raíz de uma árvore, enquanto o das teorias não científicas, quase invariavelmente, comparam-se melhor ao formato da copa de uma árvore.
    Exemplos podem explicar melhor essa idéia.
    Analisando a história do modelo atômico, num primeiro momento vemos o surgimento de várias hipóteses. Passados alguns anos, as hipóteses em pauta diminuem, sendo algumas eliminadas pelo confronto com observações e experimentações. Mais alguns anos e resta apenas uma hipótese, uma teoria atômica, aceita grosso modo por todos.
    Obviamente, esta estrutura se reproduz em diferentes escalas de detalhamento da teoria: para cada novo problema menor, para cada detalhe a ser explicado, inicialmente surgem hipóteses divergentes que, por eliminação, acabam por produzir algo consensual.
    Essa mesma estrutura, que podemos denominar "de raíz" ou "de ponta" ou "convergente", pode ser extraída da história de quase todas as teorias científicas: a evolução, a genética, quase toda a química, a cosmologia, a gravitação, o eletromagnetismo, a mecânica quântica, etc.

    Agora, analisemos, bem superficalmente, o desenvolvimento da psicologia, da astrologia e do islã. Propositalmente, selecionamos uma pseudo-ciência (que poderia ser também a sociologia, a lingüística, e grande parte do que se chama por inveja de "ciências sociais"), uma não-ciência (que poderia ser qualquer outra arte divinatória ou doutrina hermética e esotérica como o espiritismo, o i ching, iridiologia, quiromancia, etc), e uma anti-ciência, uma vez que defende a fé como ponto de partida para o conhecimento (que poderia ser qualquer outra religião).

Estamos colocando tudo isso numa mesma categoria e não vamos detalhar o desenvolvimento de cada uma dessas idéias. Quem quiser se aprofundar pode encontrar farto material em qualquer livraria ou biblioteca, e também na internet, mesmo em enciclopédias.

Todas essas idéias surgem num determinado momento da história. Pouco tempo depois, surgem divisões entre seus seguidores que levam a um cisma. E assim sucessivamente, até uma grande pulverização, como se fossem os galhos da copa de uma árvore, ramificando-se em elementos cada vez menores. As centenas (ou milhares) de diferentes "igrejas" pentecostais surgiram assim em tempos ainda recentes em nosso país. As religiões, de uma maneira geral, desenvolveram-se assim ao longo da história.
Essa estrutua, que poderíamos denominar "de copa de árvore" ou "de funil" ou "divergente" é característica de tudo que não é Ciência.

A Ciência é convergente!

  • Por fim, a Ciência é, sempre, cética e isso é, talvez, sua grande e melhor qualidade! O ceticismo é, em última instância, o que dá força às  teorias científicas. Elas são tão atacadas pelos especialista na área que, se resistir, tem autoridade para se impor. Todas as grandes teorias, e mesmo as pequenas, sofreram e sofrem ainda, constantemente, ataques intelectuais de especialistas e leigos. Assim foi com a Teoria da Evolução, com a Teoria da Gravitação, com a Teoria Quântica, com as Teorias da Relatividade, etc. Essa crítica, essa postura cética, ao contrário do que pode parecer a primeira análise, é fundamental para as boas teorias, pois é o carrasco das teorias ruis!
    Há uma história pitoresca que ilustra essa dupla função do ceticismo na Ciência: Após saber de uma publicação de nome "Cem Autores Contra Einstein", o próprio comentou que “Por que 100 autores? Se eu estivesse errado só um bastaria!”.
    Aqui cabe mais um muleta intelectual, emprestando mais uma vez as palavras de Carl Sagan:

     "A crítica vigorosa é mais construtiva em Ciência do que em outras áreas do esforço humano, pois nela existem padrões de validade adequados, com os quais podem concordar profissionais competentes de todas as partes do mundo. O objetivo dessa espécie de crítica não é suprimir, mas antes encorajar o avanço de novas idéias, aquelas que, sobrevivendo a um enxame firme e cético (grifo meu), têm grande chance de estar certas, ou, pelo menos, de serem úteis.

Quem quiser se aprofundar mais nesse assunto, por si só extremamente interessante, fecundo e, mais do que isso, fascinante, não pode deixar de ler alguns livros básicos,  como alguns dos relacionados a seguir:  

  • “Conjecturas e  Refutações”, de Karl Popper, “Estudos de História do Pensamento Científico”, de Alexandre Koyré, “A Função da Razão”, de Alfred North Whitehead, “A Ciência e a Hipótese”, de Henri Poincaré, “As Bases Metafísicas da Ciência Moderna”, de Edwin Arthur Burtt, todos publicados no Brasil pela Editora Universidade de Brasília;
  • “Problemas da Revolução Científica”, uma excelente coletânea de artigos organizados por Ron Harré e que conta com autores como Herman Bondi, Jacques Monod, Karl Popper e Burrus F. Skinner, “A Ciência Desde a Babilônia” de Derek de Solla Price, “O Senso Comum da Ciência” e “Ciência e Valores Humanos”, ambos de Jacob Bronowski, “Introdução Histórica à Filosofia da Ciência”, de John Losee, “Conhecimento Público”, de John Ziman, “Ciência e Desenvolvimento”, de Mario Bunge, e “A Ciência do Progresso Humano”, de Robin Holliday, todos publicados no Brasil pela Editora Itatiaia em co-edição com a Edusp, numa imperdível coleção nomeada “O Homem e a Ciência”;

  • Science and Anti-Science”, de Gerald Holton, editado pela Harvard University Press, e “Smoke and Mirrors How Science Reflects Reality”, de James Robert Brown, editado pela Routledge; Extremamente acessíveis e agradáveis são “O Romance da Ciência” e “O Mundo Assombrado pelos Demônios”, de Carl Sagan, lançados no Brasil pela Editora Francisco Alves e Companhia das Letras, respectivamente.  

Para quem quiser se arriscar a ir um pouco mais além, desde que se municie com o devido espírito crítico, é interessante (e não mais que isso) conhecer também os pontos de vista, sobre a ciência, de Paul Feyrabend, em “Contra o Método”, e Thomas Khun, em “A Estrutura das Revoluções Científicas” e “A Função do Dogma na Investigação Científica”.

Neste site, também vale a pena dar uma olhada no artigo "A Massa do Universo" para entender melhor como funcionam os modelos em Ciência.

 

   

   
Seres fantásticos, com poderes incríveis! Isso não é suficiente e, muito menos, é necessário para caracterizar qualquer obra como ficção científica. Acima, Super-Man e X-Man em versões quadrinhos; ao meio, à esquerda o chefão dos deuses gregos, Zeus, e à direita, Krishna, a suprema personalidade da divindade, e Arjuna, o cocheiro, numa cena do Bahgavad Gita; em baixo, uma representação medieval de uma sereia e a capa de uma revista sobre aliens... O que, disso tudo, é ficção cientíca?

 

Arthur C. Clarke, ao lado, é um dos mais profícuos escritores de ficção científica, sempre de excelente qualidade.
Um de seus mais belos livros, "2001 — Uma Odisséia no Espaço", foi sobejamente transformado em filme por Stanley Kubrick.
Acima, cena em que um astronauta caminha pela nave em estado de imponderabilidade.

 

 

 

"A atitude reducionista propicia um proveitoso filtro que salva os cientistas em todas as áreas de perderem seu tempo com idéias que não valem a pena perseguir. Nesse sentido, nós somos todos reducionistas agora."

Steven Weinberg

 

 

"A Ciência moderna segue exatamente a mesma tradição da descoberta da lei da gravitação."

"Não vou esconder nada; vou revelar tão somente a natureza na sua forma mais elegante e difícil."

Richard P. Feynman

 

"Qualquer teoria física é sempre provisória, no sentido de não passar de uma hipótese: nunca consegue provar-se. Por muitas vezes que os resultados da experiência estejam de acordo com alguma teoria, nunca pode ter-se a certeza de que na vez seguinte o resultado não a contrarie. Por outro lado, pode refutar-se uma teoria descobrindo uma única observação em desacordo com as predições da teoria."

"Vou partir do princípio simplista de que uma teoria não é mais do que um modelo do Universo, ou de uma parte restrita deste, e um conjunto de regras que relacionam quantidades no modelo com as observações que praticamos. Existe apenas na nossa mente e não tem qualquer outra realidade, seja o que for que signifique. Uma teoria é boa quando satisfaz dois requisitos: deve descrever com precisão um grande número de observações que estão na base do modelo, que pode conter um pequeno número de elementos arbitrários, e deve elaborar predições definidas sobre os resultados de observações futuras."

Stephen W. Hawking

 

"Agora declararei por completo a você este conhecimento tanto fenomenal quanto numenal, conhecendo o qual não restará nada para conhecer."

Krishna a Arjuna, no Baghavad Gita

 


 

VALE A PENA ROTULAR UMA OBRA?

A despeito de se conseguir conceituar ou não com alguma precisão a expressão “Ficção Científica”, é notório e óbvio que dificilmente uma obra é, em sua totalidade, apenas ficção científica.

Qualquer obra é mais ou menos ficção mais ou menos científica!

É quase impossível que durante todo o desenvolvimento do enredo de uma obra as reflexões e as ações dos personagens tenham, sempre, como pano de fundo a epistemologia científica.

Então, por quê classificar uma obra com o rótulo Ficção Científica?

Ora! Em tudo que cogitamos há a necessidade de fazermos simplificações e generalizações. Sem as simplificações e as generalizações a linguagem prática se torna quase impossível!  

Por quê rotular uma obra de ficção e outra de ensaio?  

Por quê rotular uma obra de prosa e outra de poesia?

A resposta é sempre a mesma: para podermos expressar, rápida, sintética e sucintamente, o que há de mais relevante na obra.

Assim, quando o que mais se destaca no enredo de uma obra, distinguindo-a de outras, é a presença da epistemologia científica, ela pode, e deve, ser rotulada com “Ficção Científica”.

Isso permite distinguí-la de tantas outras obras, que poderíamos chamar de “Ficção Anti-Científica” — como “Arquivo-X” e “Milenium”, por exemplo —, “Obras de Antecipação” —  como “1984”, de George Orwel —, “Realidade Alternativa” — como “A Ética da Traição”, do brasileiro Gerson Lodi Ribeiro —, “Fantasia Científica” — como “Star Wars” e “A Guerra de Luz e Trevas”, por exemplo, etc.

Não há por quê não classificar e rotular obras de ficção!

Isso nos permite comunicar idéias de forma sintética!  

É óbvio, que o mais correto, e preferível, sempre que a ocasião permitir, é dizer que uma obra contém mais ou menos características de ficcão científica, mais ou menos características de fantasia, etc.

Entretanto, quando a ênfase ou a concisão exigirem não há por quê não rotular uma obra com referência explícita à sua principal característica!

Vale a pena, sim, rotular as obras!

Ainda mais quando o rótulo envolve algo tão importante, tão idiossincrático da humanidade quanto a Ciência.

Nossa civilização depende basicamente, fundamentalmente, essencialmente, de forma primaz, da Ciência e das tecnologias.

O papel que o desenvolvimento científico tem — e que, no passado, teve em maior ou menor grau — no desenvolvimento, e mesmo na sobrevivência, da civilização humana é tão basilar que qualquer ficção que tenha como pano de fundo para o desenvolvimento do enredo a epistemologia da ciência é, substancialmente, radicalmente, diferente de outros tipos de ficção.

Não é comum ouvirmos falar de ficção filosófica, ficção musical, ficção geográfica... Mas fala-se em ficção científica.  

Isso não ocorre por mero acaso. A Ciência é não apenas a intérprete mais fiel da realidade, mas também sua principal transformadora — através de seu "braço armado", as tecnologias.

Não valeria a pena entrar no “atoleiro“ não fosse por tão importante conceito. Não valeria a pena classificar e rotular com alguma precisão, não estivesse o termo “científico” em jogo.

Ficção científica tem que ser melhor conceituada e melhor compreendida, entre outras coisas para que não se cometa a barbárie cognitiva (que lembra muito o “duplipensar” Orwelliano) de dizer que “Arquivo-X”, “Milenium”, “Superman”, “X-Man”, “Star Wars”, “E.T.”, “Contatos Imediatos de 3º Grau”, etc, são obras ficção científica!

Não são!  

"A Guerra de Luz e Trevas", de Tom Veitch e Cam Kennedy, é um dos mais fantásticos exemplos do que se poderia chamar de fantasia científica na arte serial. Ao lado de espaçonaves futurísticas, flutuam, "magicamente", naves de grotesco aspecto rudimentar, quase pré-histórico. Essa obra foi lançada como Graphic Novel no Brasil, em 1990, em seis fascículos, pela Editora Globo.

 

Star Wars — Guerra nas Estrelas — é um maravilhoso "conto de fadas" espacial. Com princesas (Lea), cavaleiros (Luky Sky Walker, heróis (Han Solo), magos (Obi Wan Kenoby), gnomos (Ioda), monstros malvados (Jaba) e monstros bonzinhos (Chiwaka), vilões (Dart — dark? — Vader), a mera ambientação em naves espaciais, em outros planetas, em outras galáxias até, não é suficiente para caracterizar a obra como ficção científica. Apenas, talvez, como fantasia científica. 

 

O Capitão Kirk, o Sr. Spok e o Dr. McCoy são os principais personagens de um dos mais apaixonantes seriados de TV, onde misturam-se fantasias de ingenuidade infantil com ficção científica da melhor qualidade.


VALORAÇÃO

Nenhuma classificação precisa, necessariamente, conter valorações implícitas.

Entretanto, o gosto pessoal, seja de uma única pessoa ou de uma esmagadora maioria, também não implica, a priori, maior ou menor qualidade. Apenas, qualidades diferenciadas.

Por exemplo, eu mesmo admito que sou fã de algumas obras de qualidade mais que duvidosa. O fato de apreciá-las não me impede de reconhecê-las muito abaixo da mediocridade.

Contos da Cripta, Esquadrão Classe “A”, Nacional Kid, Besouro Verde, Guerra, Sombra e Água Fresca (Hogan’s Heroes), Mike Hamer, Miame Vice, Hawai Five-0, etc, são exemplos de séries televisivas de baixa qualidade. X-Man, Thor, Hulk, Iron-Man, são exemplos de quadrinhos de baixa qualidade. Independence Day, Comando para Matar, Loucademia de Polícia, são exemplos de produção cinematográfica descuidada, para dizer o mínimo.

Entretanto, gosto demais de tudo que está relacionado aí, acima!

A qualidade (como critério de valoração) não é um pré-requisito essencial para se gostar ou não de uma obra.

Star Trek é, em geral, medíocre! Cheio de inconsistências patentes; infantis. Entretanto, tem qualidades de sobra para ser apaixonante — além de, sempre, “fascinante”.

Star Wars é um maravilhoso conto de fadas (e bruxos, e cavaleiros, etc) extremamente infantil, entretanto é também extremamente cativante. Como Peter Pan, Edward Mãos de Tesoura, O Pequeno Príncipe, Tistu, Cinderela, etc.

Milenium e Arquivo-X, são ruinzinhos mesmo! É difícil entender como fazem algum sucesso. Impossível entender como são — felizmente não muito — confundidos com ficção científica!

 

Desculpem-me os fãs incondicionais de ficção científica e de fantasia, pelas provocações, mas elas não foram gratuitas!

Ficção Científica não é Fantasia e vice-versa.

Não há por quê confundi-las!

 


 

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