ROMILDO PÓVOA FARIA — in memorian

por Renato da Silva Oliveira

 

Um texto sobre o meu “amigo de copo e de cruz”, gerado sob muitas e muitas e muitas lágrimas… em 21 de abril de 2009…

Triste sina a dos que sobrevivem aos amigos…

 

 

Nós somos fundamentalmente as nossas memórias — mesmo e também aquelas que são processadas não racionalmente, as memórias emocionais — mas somos fundamentalmente as nossas memórias.

Hoje, de certa maneira, uma parte de mim mesmo está morta. Uma extensão corpórea e material da minha memória, ainda que sem continuidade com meu próprio corpo, deixou de existir.

Lembro que, em inúmeras vezes ao longo dos últimos 30 anos, fui lembrado por um amigo — o mais leal dos amigos que eu já tive e que, provavelmente, possa vir a ter — de inúmeros fatos e situações em que eu estive envolvido mas dos quais eu mesmo não lembrava com clareza. É um tanto desconcertante quando alguém sabe mais de nós mesmos e nossas próprias histórias do que nós mesmos, ainda que não saiba tudo sobre todas as histórias.

Para chegar a esse tal ponto, de lembrar com detalhes desconcertantes situações e fatos abundantes sobre outra pessoa, é necessário um tal grau de altruísmo que, se não singular, ao menos é apenas timidamente plural.

Esse meu amigo, além de ser o mais leal, era o mais “egoísta” e, como ele mesmo dizia, “por isso mesmo, o mais altruísta” ser humano que eu conheci!

Era também — ao juízo de tantos anos de convivência — chato, ranheta, cabeça-dura, e até mal humorado em muitos momentos. E com todos seus humanos defeitos — ou qualidades, “dependendo do ponto de vista”, “ou não”, como ele sempre frisava, de maneira semelhante ao “Caetano, o Veloso” — o Romildo era querido, e muito querido, por quase todos que o conheciam além do superficialmente.

Romildo era uma figura carismática, com olhar penetrante e frontal, olhos fundos, sempre direcionados, como se estivessem a externar, de maneira cabal, determinação, fortaleza moral e retidão de caráter! Essa imagem, que ele explorava muito bem para externar suas idéias, era reforçada por sua voz grave e poderosa, sempre empostada de maneira retumbante e firme, e por sua oratória direta e — sempre e somente quando ele queria — cristalinamente clara. Por que quando ele queria, sabia turvar tudo… rápida e impiedosamente!

Sempre me pareceu natural, por isso, que o Romildo fosse um excelente professor, um grande orador, e um comunicador penetrante.

Seus dotes e suas habilidades intelectuais também faziam parecer a qualquer um que o conhecesse, superficial ou profundamente, absolutamente natural que ele fosse um grande pensador, um grande astrônomo, ou um grande seja lá o que for que realmente ele desejasse. Redundante e desnecessário salientar sua capacidade de articulação para levar adiante projetos coletivos, principalmente na área de divulgação de Ciência e, especificamente, da Astronomia. Muitos dos projetos de Astronomia hoje realizados no Brasil têm sua mão, pesada ou suave. Muitos centros de ciência, museus, observatórios e clubes de astronomia espalhados por todo o Brasil têm, em algum grau, a participação ativa do Romildo. Muitas vezes, sua ação característica foi fundamental e decisiva para a conformação de uma instituição ou projeto, como no caso mais evidente dos planetários de Campinas, de Itatiba e de Tatuí. Noutras muitas, sua ação, apesar de estar “atrás das câmeras” ou “nos bastidores”, foi imprescindível. A AsterDomus Planetarium e a Sphaera Planetaria, duas empresas que inserem o Brasil no seletíssimo clube de países produtores de planetários, jamais existiriam sem seus contínuos incentivos e sua voluntariosa e desinteressada contribuição pessoal, com idéias, soluções e, por vezes, trabalho árduo.

O Romildo era extremamente generoso. Sentia prazer em partilhar as coisas boas da vida, principalmente conversas, cervejas e conhecimento. Não surpreende que muitos dos astrônomos profissionais atuantes no Brasil tenham sido seus alunos e o mesmo sucede com muitos outros profissionais ligados à divulgação científica, nos museus e centros de ciência, nos planetários espalhados pelo país, assim como com os inúmeros ex-alunos aficcionados e apaixonados pela Astronomia.

Não é raro que um ex-aluno do Romildo o considere como seu “melhor professor” — e, não menos comum, que o considere como um grande amigo.

Para os amigos mais próximos, entretanto, sobressaiam sobre suas qualidades profissionais e aparentes muito mais os seus aspectos essencialmente humanos, como seu amplo e profundo amor ao próximo — no mais abrangente sentido que se possa entender essa expressão, mas sempre num sentido “hormonalmente” limitado, se é que me faço entender — sua ética simples e, talvez por isso, extremamente eficaz, sua sensibilidade exacerbada e peculiarmente seletiva com os demais, seu inconformismo com os sofrimentos e injustiças inerentes à condição humana, seu senso de humor propositalmente ambíguo e, por vezes, contraditório.

Repetidas vezes, em muitos anos, o ouvi citar Kant com “Em mim, a lei moral, sobre mim, o céu estrelado”. Repetidas vezes o ouvi, por vício didático de professor, dividir maniqueisticamente os seres humanos entre os bons e os “filhos da puta” — estes, os que pensam apenas em si mesmos e nos quais é ausente a empatia. E esta tônica, a de pensar sempre nos outros, no bem maior, no coletivo, o acompanhou em suas elocubrações e em suas ações durante os anos em que com ele convivi. Mesmo e apesar de suas conhecidas e reconhecidas fraquezas inerentemente humanas, demasiadamente, humanas!

Eu conheci o Romildo em 1976, no Planetário do Ibirapuera. Em 1979 nos tornamos amigos. E nos anos seguintes, grandes amigos. E nesses mais de 30 anos o conheci como ser humano, provavelmente mais do que já conheci qualquer outro ser. Com seus muitos pequenos vícios e defeitos, mas com suas qualidades — poucas ou muitas, pouco importa — marcantes, superlativas!

Lembro que em 1979, saíamos à noite do Parque Ibirapuera, indo a pé pelo portão 9, até então apenas como bons colegas de trabalho. Ele, experiente e conceituado “expositor” no Planetário e já estabelecido como professor e líder natural na Escola Municipal de Astrofísica, e eu, apenas professor auxiliar de um curso de “Astronomia para Principiantes” e ainda apenas um inseguro “sonoplasta” nas sessões do planetário. Nessa caminhada entre o planetário e o portão 9 lembro que tivemos uma conversa que, para mim, e creio que também para ele, definiu o início de nossa crescente amizade vindoura.

Em determinado momento ele me disse algo mais ou menos assim: “… eu sei que você pode estar pensando que eu estou dizendo isto apenas para que você pense que eu estou pensando que você disse aquilo para eu pensar que você está pensando o que eu pensei, inclusive isto que eu acabei de dizer pode ser para induzir você a pensar que…”.

Bem, o teor do restante da conversa pouco importava, mas para uma mente como a minha, até então e até hoje intelectualmente bastante solitária, encontrar uma outra mente capaz de tal nível de recorrência, e capaz de se atrever a externar essa recorrência esperando ser compreendido por outro, era algo realmente fantástico! E quando o Romildo achou, e eu também, que eu tinha compreendido o que ele tinha dito, percebi que ele ficou também muito feliz e impressionado, e, como eu, menos solitário a partir de então!

E desde então, com ele espacialmente por perto, trilhando caminhos comuns, convergentes ou paralelos, ou espacialmente distante, trilhando caminhos distintos e por vezes divergentes, eu e o Romildo mantivemo-nos sempre menos solitários. Estivesse eu em Vitória, em São Paulo, em Campinas, em Tatuí, em Itapecerica da Serra, e estivesse ele em São Paulo, em Campinas, em Manhuaçu, em Belém do Pará, ou em Parnamirim, mantinhamos estreito contato. Ao toque do telefone pessoal, meu ou dele, a chance de nos falarmos era sempre maior do que 1 para 10!

Por mais intelectualmente e emocionalmente isolado que eu estivesse, a simples consciência da existência de outra mente, de outro ser, em muitos e específicos aspectos semelhante a mim, era reconfortante e reduzia a profunda sensação de solidão intelectual que me acompanha quase sempre.

Com o Romildo, eu joguei futebol, bebi nos mais diversos bares e botecos pelo Brasil, freqüentei locais fuleiros e requintados, passeei e me diverti, assim como penei e sofri com ele em trabalhos árduos e inglórios. Fui formalmente seu aluno por apenas uns 2 meses, num curso de Fundamentos de Astrometria, em 1979. Com ele aprendi, além de trigonometria esférica e um montão de outras coisas sobre astronomia, outras muitas coisas muito mais importantes e muito mais difíceis, como, por exemplo, onde fica Manhuaçu: “fica perto de Manhumirim”, como ele gostava de dizer. Nunca consegui aprender que a cerveja fica melhor no copo americano.

Através do seu exemplo, aprendi um pouquinho sobre como ser menos ferro e mais bambu em certas situações e como ser mais aço titânio e menos esponja em outras. Aprendi a beber vodka e coca-cola sempre com muito… muito gelo. Aprendi a apreciar strogonoff, mas “só o verdadeiro, de filé mignon!”, e também aprendi que tomar café da manhã na padaria é mais gostoso, principalmente se depois do pingado e do pão com manteiga vier uma coca-cola.

Nas incontáveis noites que atravessamos juntos, conversando em mesas de bares sobre os mais diversos assuntos — desde variáveis cataclísmicas até sexo entre jabutis, desde a Crítica da Razão Pura, até Pato Donald — aprendi a lapidar idéias e argumentos para que resistissem às suas agudíssimas e quase sempre fundamentadas críticas. O Romildo era o maior e melhor esmeril de idéias que eu conheci e eu o usei ao máximo, sempre com a sua generosa aquiescência!

Mas hoje, 21 de abril de 2009, novamente estou tão ou mais solitário que há 30 anos.

Eu posso contar com os artelhos de apenas uma pata de rã os amigos, de fato, que encontrei durante minha existência. Hoje perdi o mais antigo e o intelectual e emocionalmente mais próximo deles.

Triste sina a dos que sobrevivem aos amigos…

 

Biografia Profissional

Romildo Póvoa Faria nasceu em em 30 de novembro de 1952, em Manhuaçu, nas montanhas de Minas Gerais, bem próximo à Serra do Caparaó.

Em 1972, foi para São Paulo acalentar um sonho de criança de tornar-se um astrônomo. Nesse ano, começou a trabalhar no Planetário do Ibirapuera e na Escola Municipal de Astrofísica, em São Paulo. No planetário, além de tornar-se um dos mais ativos e destacados “expositores”, foi também Coordenador de Programação e Chefe de Administração; na Escola de Astrofísica, foi um dos mais proemientes e queridos professores que por lá já passaram, e também Coordenador de Cursos. Serviu prazerosa e intensamente a essas instituições, quase sempre em condições bastante adversas, até 1987.

Em 1987 passou a integrar um grupo de trabalho da Pró-Reitoria de Extensão da UNICAMP para o Museu Dinâmico de Ciência de Campinas, exercendo a função de Coordenador do Planetário de Campinas até há poucos anos, quando aposentou-se.

Recentemente, no final de 2008, trabalhou nos projetos para a implantação do primeiro planetário instalado no Rio Grande do Norte, em Parnamirim. Em 26 de dezembro de 2008, foi de Campinas para Parnamirim, onde ficaria por cerca de 1 ano e meio, e, até há poucos dias, trabalhava na implantação de um novo roteiro e no treinamento dos planetaristas e professores do Planetário.

Entre 1973 e 1981, atuou também como técnico em observações astronômicas no Observatório de São Paulo e no Observatório Abrahão de Moraes do IAG-USP, em Vinhedo/Valinhos e foi um dos fundadores do Observatório Municipal Jean Nicolini (Observatório do Capricórnio), em Campinas, onde foi professor e Coordenador de cursos de 1977 a 1980.

Entre 1980 e 1983, foi professor e diretor de Astronomia do Centro de Ciências Letras e Artes de Campinas, SP.

Foi professor de Astronomia, Física e Metodologia da Ciência nos colégios Oswald de Andrade e Logos, em São Paulo, SP, de 1984 a 1986, e professor de Ciências no Colégio Coração de Jesus, em Campinas, em 1994.

Exerceu a função de Coordenador de atividades de divulgação científica do Programa Ciência-Educação, da USP, em 1987 e 1988 e Diretor do Museu Dinâmico de Ciências de Campinas em 1993 e 1994.

Também atuou como Presidente eleito do Conselho Municipal de Cultura de Campinas de 1993 a 1995.

Foi Consultor Técnico para implantação do Planetário de Vitória, em 1994.

Participou dos trabalhos para a fundação e foi o primeiro Diretor Presidente da ABP — Associação Brasileira de Planetários, eleito por dois mandatos (1996 a 2000) e também foi eleito Diretor Administrativo da OIP — Organização Ibero-Americana de Planetários para o período 1996-1998.

E além de tudo o que está acima, e além de todos os trabalhos formais que omitimos acima, o Romildo também era escritor, poeta, conferencista, e cronista.

Coordenou e atuou como debatedor convidado e conferencista em mais de 200 congressos e eventos de divulgação científica.

Coordenou e ministrou mais de 300 cursos de Astronomia, desde cursos para crianças a cursos para professores e disciplinas de graduação em várias Universidades, Faculdades, Institutos, Sociedades e Escolas brasileiras.

Freqüentemente era entrevistado pela imprensa escrita e falada, programas de TV e rádio de várias emissoras.

Escrevia regularmente matérias e análises técnicas para revistas e jornais de grande circulação e também para meios especializados.

Foi consultor e assessor do MEC para a elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais na Área de Ciências; especificamente, na área de Astronomia.

Era membro de sociedades científicas brasileiras e internacionais.

Escreveu e teve publicados sete livros de Astronomia e era um dos brasileiros com nome citado, ainda em vida, no Dicionário de Astronomia e Astronáutica por seus relevantes trabalhos em prol da Astronomia no Brasil.

Seus livros e seu nome são referência bibliográfica e entrada em enciclopédias que tratam de Ciência e, particularmente, de Astronomia no Brasil.

Romildo Póvoa Faria, vitimado por um AVC e complicações dele advindas, faleceu por volta das 12h30min do dia 21 de abril de 2009, no hospital Walfredo Gurgel, em Natal, RN.

Com toda a dignidade que a morte permite a um ser humano, o amigo Romildo, esse fantástico, fascinante e misterioso sistema adaptativo complexo, deixou de existir.

 

Bibliografia

Fundamentos da Astronomia

Halley, Viajante do Universo

Visão para o Universo

Olhando para o Céu

Iniciação à Astronomia

Maravilhas do Céu Estrelado

Cartilha Astronômica